a luta continua: Dilma Presidente

Teatro Horroroso

A última fala do Candidato Natimorto

A cena se passa em S.Paulo. É noite alta. Nos salões de um edifício de triste memória, uma multidão espectral se lamenta aos gritos:

-Perdemos de novo, perdemos de novo, perdemos de novo, soluça o Tucão Guerreiro, que diz sua fala dando pontapés no perito da Unicamp e no jornalista Camelo,

-Vade retro Satanas, vade retro Satanas! grita o coro dos militantes da TFP, todos devidamente paramentados com terços e lindas estolas vermelhas,

-Gentinha ingrata, depois do feriadão nossas empregadas nos pagam, elas vão ver quanto custa serem ingratas com patroas tão boas quanto nós que deixamos elas levarem para casa os restos de frango do almoço. O que custava elas terem votado no nosso candidato? Foram logo votar naquela, naquela,… se estrangula o Coro das Senhoras de Higienópolis.

Enquanto os personagens falam, uma multidão de ratos de esgoto foge desabaladamente, carregando computadores, sacos de calúnias, e outros apetrechos de campanha.  No meio do tumulto um trio de aspecto particularmente macabro se destaca: o Candidato Natimorto, na companhia do bugre Índio de Costas e da carpideira Cacasserra. Coberto de excrementos e fazendo ruídos obscenos, o bugre repete sem parar a praga:

-Doze pontos, não! doze pontos, não! doze pontos, não!

O Candidato Natimorto, lívido e vergando sob o peso dos santinhos e amuletos que carrega, balbucia uma ameaça terrível:

-Nunca serei, mas voltarei! Nunca serei, mas voltarei!

Vendo que ele está nas últimas, a Cacasserra tenta achar o Pavão Poliglota para com ele fazer um canja que revigore o Candidato Natimorto. Mas o Pavão previdente fugiu para o alto de uma árvore da Praça Vilaboim, de onde canta, com seu belo sotaque sorbonnard:

-Jamais de la vie! Jamais de la vie!

Para não cair, o  Candidato Natimorto tenta abraçar o Tamanduá Geraldo que escapa como pode, com seus olhos de vidro de fundo de garrafa, gemendo:

-Ai! não abraça aí não, que aí é que bate o chicotinho, ai! cuidado com  o silício.

Nesse momento, junto com as primeiras luzes do dia, entra no salão uma turma de operários de limpeza, com rodos, vassouras, baldes de água e muito sabão. Eles entram animadamente, gritando:

-Vamos lá pessoal, acabou a festa, tudo mundo vai para a rua. Mas que sujeira! Que cheiro de podre! Vamos lavar tudo isso, que não há quem aguente!

A chegada dos proletários leva os espectros ao último desespero:

-Ai, ai, ai, chegaram os operários!

Na confusão, o Candidato Natimorto leva um tranco e cai num buracão. A turma do Bexiga que passava por lá, indo para o trabalho, pergunta:

-O que aconteceu com aquele cara?

Um solícito repórter da TV Cultura dos Bandeirantes, mais conhecida como A voz do seu mestre, explica:

-Ele foi para a trincheira da guerra, para resistir!

Mas a turma do Bexiga que não é boba, diz:

-Mas que trincheira! Aquele cara caiu, ele está no fundo do buraco!

Parece ser o final. Vindo do fundo do buraco, ouve-se um fiapo de voz:

-Chama meu priminho Nhô Écio, chama meu priminho Nhô Écio! Diz para ele vir me tirar do buraco!

A Cacasserra liga para o Nhô Écio que lá do outro lado do morro responde:

-Ma num vô memo! Vô não, cumadre. Vô fica aqui, cuidando da minha roça.

Nesse momento, a platéia do teatro começa a vaiar:

-Chega! Uhhh! Esse Candidato Natimorto é péssimo, muito ruim, muda de personagem, fora, chega!

Cortina rápida.

Mais uma cena de Teatro Horroroso, imposta pela atualidade e pelo JN do dia 20 de outubro de 2010

Cena horrorosa: O urubu e o Candidato Natimorto

A cena se passa na Cidade Maravilhosa. Um cortejo macabro vem ofender a beleza natural da cidade. Na frente, vem Fernando Gagueira, vestido com uma das suas famosas  sungas de crochê em tons de verde e azul serrista. Atrás dele vem se arrastando o Candidato Natimorto, com os braços carregados de santinhos e outros amuletos, remoendo sua triste canção: “nunca serei, nunca serei, nunca serei”. Amparando os dois personagens centrais desta tragicomédia vem um enxame de temíveis mosquitos de guerra, armados até os dentes de fel de jararaca.  Maritacas, beijaflores, sabiás e outras belas aves fluminenses vaiam copiosamente a dupla macabra e seus acompanhantes. A revoada é espantosa e todas aquelas avezinhas que embelezam a natureza não se privam de juntar o gesto ao pensamento, defecando copiosamente em cima do cortejo. Fernando Gagueira cobre como pode sua bela sunga de crochê, cuja cor vai fundindo pouco a pouco o azul serrista ao marron-cocô, numa ousadia pictórica que finalmente combina bem com sua esquecida alma rebelde. Eis que um urubu distraido entra na revoada e, sem prestar atenção no que vai abaixo, se manifesta de maneira mais volumosa, seguindo o exemplo das pequenas e delicadas avezinhas. A matéria fecal se estatela no chão, respingando na dupla macabra. Gagueira diz: “Que nojo, essa gentinha não tem jeito mesmo. Quero voltar já para a Europa, lá sim que é chic fazer passeatas”. O probre Candidato Natimorto vem tão alquebrado pelo peso dos santinhos e demais amuletos que o respingo do cocô do urubu basta para derrubá-lo. Nesse momento o Coro do Jornalão de S.Paulo grita: “Atingiram um paulista. Isso não ficará assim!” E sai cantando em coro a marchinha militar da revolução de 32: tara, tara,tara,taratara, tatata, tatara! Cortina rápida.

Na Floresta do Grão-Tucanato

A cena se passa na mais lúgubre clareira da Floresta do Grão-Tucanato. Tres personagens se arrastam em direção ao público. Na frente vem a carpideira Moni Cacasserra acompanhada do caboclo Índio de Costas, espécie de curupira local. A carpideira carrega criancinhas mortas e grita: “foi ela, foi ela, foi ela”. O curupira avança de costas para o público produzindo ruídos obscenos e excrementos que são imediatamente apanhados pela carpideira que os lança na direcão do público, sempre gritando:  “foi ela, foi ela, foi ela”. Atrás da sinistra dupla, vem o Candidato Natimorto, com os braços carregados de santinhos e amuletos de vários tipos, uivando sua triste canção de despedida: “nunca serei, nunca serei, nunca serei”! A cena é pungente. Eis que, num raio deslumbrante de luz, o belo Pavão da Praça Vilaboim invade a cena, e poliglota como só ele, diz no seu belo francês sorbonnard: “après-moi, le déluge”.  Aquela luz inesperada é fatal ao Candidato Natimorto, homem das trevas. Assim  é que ele cai num estertor, e entre golfadas de bílis, expectora seu último lamento: “nunca serei”.  O Pavão da Praça Vilaboim, entre ofendido e espantado, tem a palavra final: “de toute façon, c’est moi le plus beau, c’est moi, c’est moi!”. Cortina rápida.


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  1. Esta encenação exibida pelo JN só tem uma explicação: desespero de causa.
    Que figura lamentável, o filho da… Moóca com as mãos na cabeça procurando por um ferimento e pedindo pra ser levado ao hospital.
    Agora é aguardar pelos próximos dez capítulos desse “teatro horroroso”. Ingredientes rocambolescos não faltarão, tenho certeza.

  2. Hahahhh…. acho que a grande dúvida vai ser se o Nhô Écio vai querer enterrar de vez o Natimorto, ou se vai ser obrigado a tomar um café amargo goela abaixo, ao som de Thriller do Michael Jackson! Pena que não dá mais para chamar o Chabrol para dirigir a sua peça. Parabéns.

  3. Nem o papa conseguiu salvar o natimorto, mas bem que tentaram!
    A esta altura ele já deve ter recebido a unção dos enfermos.
    Que descanse em paz…

  4. Muito Bom!!!!!!

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